Saúde

Choques mentais

Como a técnica funciona

1. O dispositivo, ligado a uma bateria implantada no peito sob a pele, dispara choques elétricos

2. Um eletrodo é colocado no nervo vago, na altura do pescoço

3. Os pulsos chegam ao cérebro pelo bulbo e seguem até o tálamo

4. De lá, espalham-se para todo o órgão

Resultado: um paciente teve sinais de consciência, como derramar uma lágrima e seguir um objeto com os olhos

* Fonte: Leandro Valiengo, coordenador do Serviço Interdisciplinar de Neuromodulação do IPq, e Gisele Sampaio Silva, neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein

O diagnóstico de estado vegetativo é um dos mais dramáticos na medicina. Está-se vivo, mas completamente sem consciência. O doente não fala, não reage a ruídos, nem compreende o que é dito à sua volta. Não há lugar para emoções ou pensamentos. Passados doze meses sem nenhuma melhora, em média, a probabilidade de recuperação é considerada praticamente nula. Um procedimento realizado recentemente na França, porém, representou um salto monumental nos estudos nessa área. Pesquisadores do Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod, em Lyon, recuperaram alguns sinais de consciên­cia em um homem que estava em estado vegetativo havia quinze anos. Ele passou a seguir objetos com os olhos e chorou ao ouvir uma música. A técnica utilizada foi um tipo de estimulação elétrica cerebral, método que consiste na implantação de eletrodos no nervo vago, estrutura que liga o cérebro aos principais órgãos vitais. O dispositivo é colocado na altura do pescoço e envia choques ao cérebro de forma indireta e não invasiva (veja o quadro acima).

Todos os anos, 3,5 milhões de pessoas entram em coma no Brasil. Cerca de 10% permanecem em estado vegetativo um longo tempo. Os motivos são diversos: acidentes, derrames, excesso de álcool. O cérebro entra em uma espécie de modo stand-by. Como uma reação de sobrevivência, os neurônios que restaram saudáveis reduzem a atividade para poupar energia e, assim, garantir o funcionamento de sinais vitais do organismo, como a respiração e os batimentos cardíacos. A  estimulação elétrica não só despertou parte desses neurônios como também agiu sobre alguns danificados. A  técnica já vem sendo aplicada com sucesso nos cuidados da depressão severa (reduz os sintomas em 50% dos doentes) e da epilepsia refratária (diminui a frequência das crises convulsivas em metade dos portadores). Diz o neurocirurgião Arthur Cukiert: “É um método com um potencial imenso e poucos efeitos colaterais”.

Publicado em VEJA de 8 de novembro de 2017, edição nº 2555