Saúde

‘Breast ironing’: uma prática para atrofiar os seios de mulheres

'Breast ironing': uma prática para atrofiar os seios de mulheres  (Foto: Pixabay) (Foto: Pixabay)

Notícias recente sobre o chamado breast ironing retratam como essa cultura causa danos às meninas. Os relatórios seguiram a iniciativas de ações mais consistentes contra a prática, que é feita para impedir o desenvolvimento dos seios de uma menina e, posteriormente, reduzir a atenção sexual que ela pode receber. Envolve o uso de um objeto para massagear, bater ou pressionar os seios.

O ato é comum na África Ocidental e Central, incluindo Guiné-Bissau, Chade, Togo, Benin, Guiné-Conakry, Costa do Marfim, Quênia e Zimbábue. É particularmente prevalente em Camarões: lá, o número de meninas que foram submetidas ao breast ironingé estimado em um em três (cerca de 1,3 milhão).

Segundo as Nações Unidas, 3,8 milhões de adolescentes em todo o mundo foram afetadas pelo achatamento das mamas. Estima-se que cerca de mil meninas de comunidades da África Ocidental que moram no Reino Unido tenham sido submetidas à prática, mas o número pode ser muito mais elevado.

Embora os relatos sobre os horrores da mutilação genital feminina, do casamento forçado e dos chamados crimes de honra sejam comuns, as pessoas talvez tenham menos consciência da prática em que as meninas, à medida que a puberdade se instala, têm seus seios atrofiados.

Estabeleci isso durante 15 anos de pesquisa sobre "práticas culturais prejudiciais" em todo o mundo. A atividade espelha crenças e valores misóginos que sustentam outras práticas abusivas. Em última análise, é reflexo de uma dinâmica de poder que exige submissão feminina e controle total sobre a sexualidade de mulheres e meninas.

A socialização de jovens garotas
O ato de atrofiar as mamas tem sido parte integrante da socialização de jovens de comunidades afetadas há algum tempo. As consequências médicas podem ser graves. A prática pode incluir o uso de pedras de esmerilhamento, espátulas, vassouras e cintos para amarrar ou prender os seios. Às vezes, folhas que supostamente possuem qualidades medicinais ou curativas são usadas, bem como cascas de banana, pedras quentes e ferros elétricos.

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A prática é geralmente realizada por mães, xamãs e curandeiros. Algumas parteiras realizam a prática. Isso faz dela uma fonte de renda, de forma semelhante à mutilação genital feminina.

O crescimento dos seios de uma menina durante a puberdade é visto como ligado ao surgimento de sua sexualidade; se não for controlada, isso trará implicações "problemáticas" e "destrutivas" para o status quo familiar e comunitário (patriarcado).

No entanto, essa leitura de gênero da prática é ainda mais complicada se considerarmos pesquisas que sugerem que as mães começam a atrofiar os seios de suas filhas como uma forma de evitar o casamento precoce e manter as filhas na escola por mais tempo.

Em outras palavras, se os seios de uma menina puderem ser retidos do desenvolvimento, ela não será vista como pronta para o casamento e o parto e, portanto, ficará livre para continuar sua educação por mais tempo.

Entender os motivadores por trás da prática é obviamente crítico se vamos identificar as rotas para mudanças. Claramente, o ato de amassar os peitos não é a resposta para o casamento infantil. Mas em contextos em que há poucas escolhas, parece oferecer a algumas mães a única maneira viável de dar às filhas um pouco mais de tempo para se tornarem educadas o suficiente para ter opções.

Um problema global
A mutilação genital e a "amputação" de mamas precisam estar situadas dentro de uma ideologia mais ampla que considera a sexualidade feminina uma vergonha e algo a ser escondido e negado.

Globalmente, há esforços para reverter essa mentalidade. A UK Aid, por exemplo, financia um movimento social chamado The Girls Generation, que funciona em toda a África para reverter as normas sociais que sustentam a mutilação genital feminina.

A substituição de práticas nocivas, como a mutilação genital feminina e o ato de atrofiar os seios, por outros novos rituais que celebram o corpo feminino, ajudarão, com o tempo, a reverter essas visões negativas.

Relatar notícias sobre a prevalência dessas práticas e as razões por trás delas não serão ajuda o suficioente — como acontece no Reino Unido — que retrata o atrofiar dos seis como evidência de ainda mais horrores abrigados por “outras culturas”.

O foco deve estar nas desigualdades estruturais subjacentes que continuam a desvalorizar os corpos de mulheres e meninas. Esse é um problema global e não é algo único em partes específicas do mundo.

*Traduzido e adaptado do site The Conversation.

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