Saúde

O dilema da medicina genética: intervenções esbarram em limites éticos

São Paulo — Fazer ou não fazer? Contar ou não contar? A medicina genética lida diariamente com os dilemas em relação aos testes e aplicações em genes de pacientes, que em algum momento esbarram nos limites éticos. A questão foi abordada durante o EXAME Fórum Saúde, que aconteceu na manhã desta quarta-feira (12) em São Paulo.

Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo, apresentou um panorama de como as alterações e testes genéticos entraram na pauta da sociedade, após o caso do cientista chinês que editou o gene de duas bebês para deixá-las imunes ao HIV.

“Eu defendo que façamos pesquisas em embriões, mas que não serão implantados para desenvolvimento, já que é melhor aprender a corrigir um defeito do que descartá-lo. Mas, enquanto não tivermos total certeza de que essas alterações não acarretarão outros problemas de saúde no futuro, não devemos modificar os genes”, afirma.

Para a especialista, esse é o principal limite para as alterações. Já em relação aos testes genéticos, eles devem ser feitos. Mas há duas questões a ser respondidas: o que se deve contar ou não das descobertas para os pacientes e para onde vão os dados coletados.

No primeiro alerta, Zatz cita situações em que o teste genético revela equívoco de paternidade. “Como fazemos quando descobrimos que o pai não é o pai biológico? Na maioria das vezes, precisamos chamar a mãe, mas o dilema está aqui”, conta.

Já em relação ao segundo dilema, a proteção de dados e a segurança jurídica são discussões constantes e nem sempre trazem respostas satisfatórias. “A evolução da ciência não pode se sobrepor aos nossos direitos de dados”.

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Futuro das pesquisas genéticas

A cientista afirma que as pesquisas genéticas serão cada vez mais comuns em todo o mundo, mas, para que o Brasil não perca sua evolução, será necessário aumentar o financiamento.

“Recentemente tivemos um corte enorme nos investimentos das pesquisas genéticas e há uma série de profissionais competentes para isso. Mas nos últimos meses eles têm buscado oportunidades fora do país. Sem investimento na ciência, não vamos evoluir”, afirmou.

Zatz sugere que as políticas públicas comecem a ser pensadas para inserir a população no investimento em ciência, com incentivos ficais não só para empresas, mas para pessoas físicas também.

“Nos Estados Unidos há esse incentivo e aqui também precisamos começar a elaborar. Quem teve um parente que viveu com Alzheimer, por exemplo, com certeza, se tiver condições financeiras, irá pagar para descobrirmos mais sobre a doença”, conclui.

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