Saúde

Livro nazista de anatomia ainda é utilizado por cirurgiões: entenda

Livro nazista de anatomia ainda é utilizado por cirurgiões: entenda Ilustração do pulmão do livro de 1937 (Foto: Wikipedia Commons)Ilustração do pulmão do livro de 1937 (Foto: Wikipedia Commons)

Um atlas de anatomia que só foi criado devido à morte de centenas de pessoas assassinadas pelo regime nazista é usado até hoje por cirurgiões de todo o planeta. As imagens são tão detalhadas que muitos consideram o livro o “melhor” exemplo em ilustrações anatômicas no mundo.

Para produzir os desenhos, muitos cadáveres de prisioneiros políticos foram dissecados pelo autor do atlas, o médico nazista Eduard Pernkopf. Ao canal britânico BCC, a cirurgiã Susan Mackinnon contou que se sente pouco à vontade com a origem do livro, porém, ao mesmo tempo, não poderia fazer o seu trabalho sem consultá-lo — o atlas a ajuda a descobrir até mesmo pequenos nervos.

Já Joseph Polak, que é rabino e sobrevivente do Holocausto, mas também professor de direito da saúde, disse que o livro é um "enigma moral" pois é feito do "mal real". Porém, como a publicação ainda é muito útil em procedimentos cirúrgicos, ele afirmou que também "pode ser usada a serviço do bem".

Exemplos do trabalho do médico Eduard Pernkopf, de 1923 (Foto: Wikipedia Commons)Exemplos do trabalho do médico Eduard Pernkopf, de 1923 (Foto: Wikipedia Commons)

Origem maligna
O projeto de Pernkopf para concluir o livro demorou 20 anos. O doutor se destacou no meio acadêmico austríaco devido ao apoio que prestava ao partido do ditador Adolf Hitler. Quando o médico nazista virou reitor da Universidade de Viena, ele demitiu todos os judeus da faculdade — até mesmo três ganhadores do ´Prêmio Nobel.

Uma lei do ano de 1939 determinou que os corpos dos prisioneiros do nazismo tivessem de ser levados a departamentos de anatomia para que fossem estudados. Havia tantos cadáveres, que algumas das execuções eram adiadas. Com o material abundante, Pernkopf costumava fazer dissecações 18 horas por dia.

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Depois, a partir dos corpos dos presos políticos dissecados, foram realizadas quase metade das 800 ilustrações do livro. Na primeira edição do atlas, de 1937, as assinaturas dos ilustradores Erich Lepier e Karl Endtresser aparecem com suásticas e com dois raios da Schutzstaffel (SS), a força paramilitar do Partido Nazista.

Assinatura de ilustrador esconde símbolo da suástica (Foto: Wikipedia Commons)Assinatura de ilustrador esconde símbolo da suástica (Foto: Wikipedia Commons)

Mesmo após o final da Segunda Guerra Mundial, em uma edição de 1964 do atlas, havia ainda as assinaturas originais. Edições posteriores eliminaram os símbolos nazistas e ao longo dos anos, o livro foi um sucesso de vendas: milhares de cópias do atlas foram vendidas em todo o mundo e traduzidas para cinco idiomas.

Só na década de 1990 que começou uma discussão sobre a origem da publicação. Quando a história violenta veio à tona, o livro saiu de publicação em 1994.

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