Saúde

Por que temos diferentes tipos sanguíneos?

Ainda é um mistério para a ciência o verdadeiro motivo por que temos diferentes tipos sanguíneos (Foto: Pixabay)Ainda é um mistério para a ciência o verdadeiro motivo por que temos diferentes tipos sanguíneos (Foto: Pixabay)

Quando meus pais me informaram que meu tipo sanguíneo era A+, senti um estranho orgulho. Se A+ era a nota mais alta na escola [no sistema escolar norte-americano, A+ é o equivalente a 10], então certamente A+ era o melhor tipo sanguíneo — uma marca biológica de distinção.

Não levou muito tempo para que eu percebesse o quão bobo era esse sentimento. Mas não aprendi muito mais sobre o que realmente significava ter tipo sanguíneo A+. Ao me tornar um adulto, tudo o que eu realmente sabia era que se acabasse em um hospital precisando sangue, os médicos teriam que ter certeza de que fariam uma transfusão com o tipo de sangue adequado.

E ainda assim permaneceram algumas perguntas insistentes. Por que 40% dos caucasianos têm tipo sanguíneo A, enquanto somente 27% dos asiáticos o têm? De onde vêm os diferentes tipos sanguíneos e o que eles fazem? Para conseguir algumas respostas, fui aos especialistas — hematologistas, geneticistas, biólogos evolucionários, virologistas e cientistas da nutrição.

Em 1900, o médico austríaco Karl Landsteiner descobriu os tipos sanguíneos pela primeira vez, vencendo o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1930 por sua pesquisa. Desde então, cientistas desenvolveram ferramentas ainda mais poderosas para desvendar a biologia dos tipos sanguíneos. Eles descobriram algumas pistas valiosas — traçando a ancestralidade, por exemplo, e detectando influências dos tipos sanguíneos em nossa saúde. E ainda assim descobri que em muitas maneiras os tipos sanguíneos permanecem estranhamente misteriosos. Cientistas ainda têm que conseguir uma boa explicação para a existência deles.

“Não é incrível?”, diz Ajit Varki, um biólogo na Universidade da Califórnia, San Diego. “Quase cem anos depois que o prêmio Nobel foi dado para essa descoberta, ainda não sabemos exatamente para que eles servem”

Meu conhecimento de que sou tipo A foi possível graças a uma das maiores descobertas da história da medicina. Porque médicos conhecem os tipos sanguíneos, eles podem salvar vidas ao fazerem transfusões em pacientes. Mas pela maior parte da história, a noção de colocar o sangue de uma pessoa em outra era um sonho febril.

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Médicos da Renascença imaginavam o que poderia acontecer se colocassem sangue nas veias de seus pacientes. Alguns pensavam que poderia ser um tratamento para todos os tipos de doenças, até insanidade. Finalmente, nos anos 1600, alguns médicos testaram a ideia, com resultados desastrosos. Um médico francês injetou sangue de bezerro em um homem louco, que começou a suar, vomitar e urinar com a cor de fuligem. Depois de outra transfusão, o homem morreu.

Tais calamidades deram uma má reputação a transfusões sanguíneas por 150 anos. Até no século 19 somente alguns médicos ousavam tentar o procedimento. Um deles foi o britânico James Blundell. Como os outros médicos de seu tempo, ele viu muitas mulheres morrerem de hemorragia no parto. Depois da morte de uma paciente em 1817, ele concluiu que não poderia se conformar com a forma como as coisas eram. “Eu não poderia deixar de considerar que a paciente poderia ter sido salva por uma transfusão”, ele escreveu.

Pacientes humanos deveriam receber somente sangue humano, Blundell decidiu. Mas ninguém nunca havia experimentado realizar tal transfusão. Blundell começou desenhando um sistema de funis de seringas e tubos que poderiam canalizar o sangue de um doador a um paciente em necessidade. Depois de testar o aparato em cachorros, Blundell foi chamado para atender um homem que estava com hemorragia. “A transfusão poderia dar a ele uma chance de viver”, ele escreveu.

Alguns doadores deram a Blundell 415 ml de sangue, os quais ele injetou no braço do homem. Depois do procedimento, o paciente disse a Blundell que se sentiu melhor — “menos tonto” — mas dois dias depois ele morreu.

Mesmo assim, a experiência convenceu Blundell de que a transfusão sanguínea seria um grande benefício para a humanidade, e ele continuou colocando sangue em pacientes desesperados nos anos seguintes. Ele teria feito dez transfusões. Somente quatro pacientes sobreviveram.

Embora outros médicos também tenham feito experiências com transfusão sanguínea, suas taxas de sucesso eram igualmente baixas. Diferentes tentativas foram feitas, incluindo as dos anos 1870 de usar leite nas transfusões (o que sem surpresas era ineficaz e perigoso).

Blundell tinha razão em acreditar que humanos deveriam somente receber sangue humano. Mas ele não sabia de outro fato crucial sobre o sangue: que humanos deveriam receber sangue somente de certos outros humanos. É provável que a ignorância de Blundell sobre esse fato simples tenha causado a morte de alguns de seus pacientes. O que torna essas mortes ainda mais trágicas é que a descoberta dos tipos sanguíneos, algumas décadas depois, foi o resultado de um procedimento relativamente simples.

As primeiras pistas sobre por que as transfusões do início do século 19 falharam foram os coágulos de sangue. Quando cientistas no fim de 1800 misturaram sangue de diferentes pessoas em tubos de teste, eles notaram que às vezes as células de sangue vermelhas grudavam. Mas porque o sangue geralmente vinha de pacientes doentes, os cientistas ignoraram os coágulos pensando se tratar de alguma patologia que não valia a pena investigar. Ninguém se interessou em ver se o sangue de pessoas saudáveis também geraria coágulos, até Karl Landsteiner imaginar o que aconteceria. Imediatamente, ele pode ver que as misturas de sangue saudável às vezes também coagulavam.

Landsteiner começou a mapear o padrão de coágulos, coletando sangue de membros de seu laboratório, incluindo ele mesmo. Ele separava cada amostra em células sanguíneas vermelhas e plasma, e aí combinava o plasma de uma pessoa com células de outra.

O austríaco descobriu que os coágulos ocorriam somente se ele misturasse o sangue de certas pessoas. Ao desvendar todas as combinações, ele separou os sujeitos em três grupos e deu a eles os nomes arbitrários de A, B e C. (Mais tarde, C foi renomeado O, e alguns anos depois outros pesquisadores descobriram o grupo AB. Na metade do século 20, o pesquisador norte-americano Philip Levine descobriu outra forma de categorizar o sangue, baseado na presença do fator Rh. O sinal de adição ou subtração no fim das letras de Landsteiner indica se a pessoa tem o fator ou não.)

Quando Landsteiner misturou o sangue de pessoas diferentes, descobriu que havia algumas regras. Se misturasse o plasma do grupo A com células vermelhas de outra pessoa do grupo A, o plasma e as células permaneciam líquidos. A mesma regra ocorria para o grupo B. Mas se Landsteiner misturasse o plasma do grupo A com as células vermelhas do grupo B, as células coagulavam (e vice-versa).

O sangue das pessoas no grupo O era diferente. Quando Landsteiner misturava células vermelhas de A ou B no plasma de O, as células coagulavam. Mas ele podia adicionar o plasma de A ou B às células vermelhas de O sem nenhuma coagulação.

É essa coagulação que tornam as transfusões sanguíneas tão potencialmente perigosas. Se um médico acidentalmente injetasse sangue tipo B em meu braço, meu corpo ficaria repleto de pequenos coágulos. Eles atrapalhariam minha circulação e me fariam sangrar absurdamente, lutar para respirar e potencialmente morrer. Mas se eu recebesse sangue tanto do tipo A ou O, eu ficaria bem.

Landsteiner não sabia o que precisamente distinguia um tipo sanguíneo de outro. Gerações seguintes descobriram que as células vermelhas em cada tipo sanguíneo são decoradas com diferentes moléculas em suas superfícies. No meu sangue tipo A, por exemplo, as células constróem essas moléculas em dois estágios, como dois pisos de uma casa. O primeiro piso é chamado antígeno H. No topo do primeiro piso, as células constróem um segundo, chamado antígeno A.

Pessoas com sangue tipo B, por outro lado, constróem o segundo andar da casa em um formato diferente. E pessoas com sangue tipo O constróem uma casa de somente um andar, como um rancho: eles constróem somente o antígeno H e não seguem adiante.

O sistema imunológico de cada pessoa se torna familiar com seu tipo sanguíneo. Se um indivíduo recebe uma transfusão do tipo de sangue errado, o sistema imune responde com um ataque furioso, como se o sangue fosse um invasor. A exceção para essa regra é o tipo O. Ele só tem antígenos H, que estão presentes também em outros tipos de sangue. Para uma pessoa com tipo A ou B, ele parece familiar. Essa familiaridade torna pessoas com tipo O doadores universais, por isso seu sangue é valioso para bancos sanguíneos.

Landsteiner relatou seu experimento em um artigo curto em 1900. “(…) as observações relatadas podem ajudar na explicação das diferentes consequências de transfusões sanguíneas terapêuticas”, ele concluiu em uma subavaliação primorosa. A descoberta de Landsteiner abriu o caminho para transfusões seguras em larga escala, e até hoje bancos sanguíneos usam o método básico de observar a reação das células sanguíneas como um teste rápido e confiável de tipo sanguíneo.

Mas enquanto respondia a uma questão antiga, Landsteiner levantou outras novas. Para que os tipos sanguíneos servem? Por que as células vermelhas se preocupam com construir suas casas moleculares? E por que as pessoas têm casas diferentes?

Respostas científicas sólidas a essas perguntas têm sido difíceis de encontrar. Enquanto isso, algumas explicações científicas ganharam enorme popularidade. “Tem sido ridículo”, suspira Connie Westhoff, diretora de Imuno-hematologia, Genômica e Sangue Raro do Centro de Sangue de Nova York.

Em 1996, um naturopata chamado Peter D’Adamo publicou um livro chamado A Dieta do Tipo Sanguíneo. D’Adamo argumentou que devemos comer de acordo com nossos tipos sanguíneos, a fim de harmonizar com nossa herança evolutiva.

Tipos sanguíneos, ele reivindica, “aparentemente chegaram em conjunturas críticas do desenvolvimento humano”. De acordo com D’Adamo, tipos de sangue O surgiram de nossos ancestrais caçadores da África, tipo A no alvorecer da agricultura, e o tipo B surgiu entre 10 mil e 15 mil anos atrás nas montanhas do Himalaia. Tipo AB, ele argumenta, é uma mistura moderna de A e B.

A partir dessas suposições, D’Amado então afirmou que nosso tipo sanguíneo determina que comida devemos comer. Com meu tipo de sangue A, baseado na agricultura, por exemplo, eu deveria ser vegetariano. Pessoas com o tipo O, de antigos caçadores, devem ter uma dieta rica em carne e evitar grãos e laticínios. De acordo com o livro, comidas que não são adequadas ao nosso sangue contêm antígenos que podem causar todos os tipos de doenças. D’Adamo recomendou sua dieta como forma de reduzir infecções, perder peso, lutar contra câncer e diabetes, além de retardar o processo de envelhecimento.

O livro de D’Adamo vendeu 7 milhões de cópias e foi traduzido em 60 línguas. Foi prosseguido por uma corrente de outros livros de dieta do tipo sanguíneo; D’Adamo também vende suplementos alimentares para cada tipo sanguíneo em seu site. Como resultado, médicos frequentemente são questionados por seus pacientes se dietas de tipo sanguíneo de fato funcionam.

A melhor forma de responder a essa pergunta é fazer um experimento. No livro, D’Adamo escreveu que ele estava no oitavo ano de um teste que duraria uma década de dietas do tipo sanguíneo em mulheres com câncer. Após 18 anos, no entanto, os dados desse teste ainda não foram publicados (o texto foi escrito em 2014).

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Recentemente, pesquisadores na Cruz Vermelha da Bélgica decidiram ver se havia alguma outra evidência favorável à dieta. Eles buscaram na literatura científica experimentos que mediam os benefícios de dietas baseadas em tipos sanguíneos. Embora tenham examinado mais de mil estudos, seus esforços foram inúteis. “Não há evidência direta apontando benefícios à saúde das dietas de tipos sanguíneos”, disse Emmy De Buck, da Cruz Vermelha da Bélgica-Flanders.

Depois que De Buck e seus colegas publicaram a revisão no American Journal of Clinical Nutrition, D’Adamo respondeu em seu blog. Apesar da falta de evidências publicadas que apoiam sua dieta, ele afirmou que a ciência por trás dela está certa. “Existe boa ciência por trás das dietas de tipo sanguíneo, do mesmo modo como havia boa ciência por trás dos cálculos matemáticos [sic] que levaram à Teoria da Relatividade”, ele escreveu.

Não obstante as comparações a Einstein, os cientistas que de fato fazem pesquisas sobre tipos sanguíneos categoricamente rejeitam tais afirmações. “A promoção dessas dietas é errado”, um grupo de pesquisadores declarou no Transfusion Medicine Reviews.

Mesmo assim, algumas pessoas que seguem a dieta do tipo sanguíneo veem resultados positivos. De acordo com Ahmed El-Sohemy, um cientista nutricional na Universidade de Toronto, não há razões para pensar que os tipos sanguíneos têm algo a ver com o sucesso da dieta.

El-Sohemy é um especialista no novo campo da nutrigenômica. Ele e seus colegas recrutaram 1500 voluntários, acompanhando os alimentos que eles comem e a saúde deles. Os cientistas estão analisando o DNA dos sujeitos para ver como os genes podem influenciar a forma como a comida os afeta. Duas pessoas podem responder de formas diferentes à mesma dieta dependendo de seus genes.

“Quase toda vez que dou palestras sobre o assunto, alguém no final me pergunta ‘é como a dieta do tipo sanguíneo?’”, diz El-Sohemy. Como um cientista, ele considerou o livro A Dieta do Tipo Sanguíneo incompleto. “Nenhuma das coisas no livro é baseada na ciência”, ele disse. Mas El-Sohemy percebeu que como ele conhecia os tipos sanguíneos de seus 1500 voluntários, era possível ver se a dieta do tipo sanguíneo de fato era boa para as pessoas.

El-Sohemy e seus colegas dividiram os participantes de acordo com suas dietas. Alguns tiveram a dieta rica em carnes recomendada por D’Adamo para o tipo O, outros comeram uma dieta vegetariana recomendada para o tipo A, e assim por diante. Os cientistas deram a cada pessoa no estudo uma pontuação para quão bem aderiram a cada dieta do tipo sanguíneo.

Os pesquisadores descobriram que, de fato, algumas das dietas poderia fazer bem. Pessoas que aderiram à dieta do tipo A, por exemplo, tiveram redução do IMC, da cintura e da pressão sanguínea. Pessoas na dieta do tipo O tiveram índices de triglicerídeos menores. A dieta do tipo B — rica em laticínios — não trouxe nenhum benefício.

“O truque”, diz El-Sohemy, “é que não tem nada a ver com o tipo sanguíneo das pessoas.” Em outras palavras, se você tem tipo de sangue O, você pode se beneficiar de uma dieta do tipo A tanto quanto uma pessoa com sangue tipo A — provavelmente porque os benefícios de uma dieta principalmente vegetariana podem ser aproveitados por qualquer um. Assim como quem adere a uma dieta do tipo O, que corta muitos carboidratos, também vai ter vantagens. Do mesmo modo, uma alimentação rica em laticínios não é saudável para ninguém — não importa o tipo sanguíneo.

A evolução dos tipos sanguíneos

Um dos atrativos da dieta do tipo sanguíneo é a história da origem de como adquirimos nossos diferentes tipos sanguíneos. Mas essa história se parece pouco com a evidência que cientistas coletaram sobre a evolução dos tipos de sangue.

Depois da descoberta de Landsteiner, em 1900, outros cientistas se perguntaram se o sangue de outros animais também tinham diferentes tipos. Descobriu-se que algumas espécies de primatas tinham sangues que se misturavam bem com certos tipos sanguíneos de humanos. Mas por um longo período foi difícil entender que conclusão tirar das descobertas. O fato de que o sangue de um macaco não coagula com meu sangue tipo A não necessariamente significa que o macaco herdou o mesmo tipo de gene A que eu carrego de um ancestral comum que nós compartilhamos. O tipo de sangue A pode ter evoluído mais de uma vez.

A incerteza lentamente começou a se dissolver, começando nos anos 1990 com cientistas decifrando a biologia molecular de tipos sanguíneos. Eles descobriram que um único gene, chamado ABO, é responsável por construir o segundo andar da casa do tipo sanguíneo. A versão A do gene se difere do B por algumas mutações-chave. Pessoas com sangue tipo O têm mutações no gene ABO que as previne de fazer a enzima que constrói o antígeno A ou B.

Cientistas poderiam então começar comparando o gene ABO de humanos com outras espécies. Laure Ségurel e seus colegas no Centro Nacional de Pesquisa Científica em Paris lideraram a pesquisa mais ambiciosa de genes ABO em primadas feita até o momento. E descobriram que nossos tipos sanguíneos são profundamente velhos. Gibões e humanos ambos têm variantes tanto para sangue tipo A quanto B, que vêm de um ancestral comum que viveu há 20 milhões de anos.

Nossos tipos de sangue podem ser até mais velhos, mas é difícil saber quão velhos. Cientistas ainda têm que analisar os genes de todos os primatas, portanto não podem ver quão presentes nossas próprias versões estão em outras espécies. Mas a evidência que cientistas coletaram até agora já revela uma história turbulenta de tipos sanguíneos. Em algumas linhagens as mutações acabaram com um tipo de sangue ou outro. Chimpanzés, nossos parentes mais próximos ainda vivos, têm somente tipos A e O. Gorilas, por sua vez, só têm B. Em alguns casos, mutações alteraram o gene ABO, transformando o tipo A no tipo B. E mesmo em humanos, cientistas estão descobrindo que são frequentes as mutações que previnem a proteína ABO de construir um segundo piso na casa do tipo sanguíneo. Essas mutações transformaram tipos de sangue A ou B em O. “Existem centenas de maneiras de ser tipo O”, diz Westhoff.

Ser tipo A não é um legado dos meus ancestrais fazendeiros, em outras palavras. É um legado dos meus ancestrais macacos. Sem dúvida, se meu tipo sanguíneo sobreviveu por milhões de anos, ele deve estar me fornecendo alguns benefícios biológicos óbvios. Caso contrário, por que minhas células sanguíneas se preocupam em construir estruturas moleculares tão complicadas?

Ainda assim, cientistas lutam para identificar qual benefício o gene ABO fornece. “Não existe uma explicação boa e definitiva para ABO”, diz Antoine Blancher da Universidade de Toulouse, “embora muitas respostas tenham sido dadas.”

O fenótipo de Bombaim

A demonstração mais chamativa da nossa ignorância sobre o benefício de tipos sanguíneos foi evidenciada em Bombaim, em 1952. Médicos descobriram que um punhado de pacientes não tinha tipo de sangue ABO — não A, não B, não AB, não O. Se A e B são casas de dois andares, O é uma de um andar, então esses pacientes de Bombaim só tinham um terreno vazio.

Desde a descoberta, essa condição — chamada de fenótipo de Bombaim — apareceu em outras pessoas, embora seja extremamente rara. E até onde os cientistas sabem, nenhum mal vem dela. O único risco médico conhecido é se for necessária uma transfusão. Pessoas com o fenótipo de Bombaim só aceitam sangue de outras pessoas com o mesmo fenótipo. Mesmo sangue tipo O, supostamente o tipo universal, pode matá-las.

O fenótipo de Bombaim prova que não há vantagem imediata de vida ou morte em ter tipos de sangue ABO. Alguns cientistas pensam que a explicação para os tipos sanguíneos pode estar em suas variações. Isso porque diferentes tipos de sangue podem nos proteger de doenças.

O elo com doenças

Médicos notaram pela primeira vez uma conexão entre tipos de sangue e enfermidades na metade do século 20, e a lista continua a crescer. “Existem muitas associações sendo descobertas entre grupos sanguíneos e infecções, cânceres e uma variedade de doenças”, Pamela Greenwell, da Universidade de Westminster, me disse.

Foi Greenwell que me explicou, para meu descontentamento, que meu tipo de sangue A aumenta o risco de eu desenvolver alguns tipos de câncer, como certos tumores no pâncreas e leucemia. Sou também mais propenso a infecções por varíola, doenças cardiovasculares e malária severa. Já pessoas com tipo O, por exemplo, têm maior probabilidade de ter úlceras e ruptura no tendão de Aquiles.

Essas conexões entre tipos sanguíneos e doenças têm uma arbitrariedade misteriosa, e cientistas apenas começaram a compreender as razões por trás delas. Por exemplo, Kevin Kai, da Universidade de Toronto, e seus colegas têm investigado por que pessoas com tipo O têm maior proteção contra malária severa do que pessoas com outros tipos sanguíneos. Seus estudos indicam que células imunes têm mais facilidade em reconhecer células de sangue infectadas se elas são do tipo O do que outros tipos.

Mais confusas são as conexões entre tipos de sangue e doenças que não têm nada a ver com o sangue. Veja o norovírus. Esse patógeno nojento é o terror de cruzeiros, visto que pode atacar centenas de passageiros, causando casos severos de vômito e diarreia. Ele faz isso ao invadir as células intestinais, deixando as sanguíneas intocadas. Mesmo assim, o tipo de sangue de cada um influencia o risco de ser infectado por uma variedade em particular de norovírus.

A solução para esse mistério pode ser encontrada no fato de que células sanguíneas não são as únicas a produzirem antígenos de tipo de sangue. Eles também são produzidos por células nas veias sanguíneas, no sistema respiratório, na pele e no cabelo. Muitas pessoas até secretam antígenos de tipo sanguíneo na saliva. Os norovírus podem nos deixar doentes ao se agarrarem aos antígenos produzidos por células no intestino.

Ainda assim, um norovírus só se agarra firmemente a uma célula se suas proteínas couberem confortavelmente no antígeno de tipo sanguíneo da célula. Então é possível que cada cepa de norovírus tenha proteínas adaptadas para se agarrar firmemente a certos antígenos de tipo de sangue, mas não outros. Isso poderia explicar por que nosso tipo de sangue pode influenciar qual cepa de norovírus pode nos deixar doentes.

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Também pode ser uma dica de por que uma variedade de tipos de sangue sobreviveram por milhares de anos. Nossos ancestrais primatas estavam presos em uma batalha interminável contra patógenos, incluindo vírus, bactérias e outros inimigos. Alguns desses patógenos podem ter se adaptado para explorar diferentes tipos de antígenos de tipo de sangue. Os patógenos que se encaixavam melhor nas variedades sanguíneas mais comuns podem ter sobrevivido melhor, porque tinham a maior parte de hospedeiros para infectar. Mas, gradualmente, eles podem ter destruído essa vantagem ao matar os hospedeiros. Enquanto isso, primatas com tipos de sangue mais raros prosperaram, graças à proteção que tinham contra alguns dos inimigos.

Enquanto contemplo essa possibilidade, meu tipo de sangue A permanece tão intrigante quanto quando eu era um menino. Mas é um estado mais profundo de perplexidade que me traz algum prazer. Eu percebo que a razão para meu tipo de sanguíneo pode, afinal, não ter nada a ver com sangue.

*Texto originalmente publicado no site Mosaic Science

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