Saúde

HPA: a substância cancerígena ‘invisível’ do petróleo que atinge o Nordeste

Óleo já afeta 9 estados brasileiros. Registro feito em Japaratinga, Alagoas (Foto: Reprodução Greepeace Brasil)Óleo já afeta nove estados brasileiros. Registro feito em Japaratinga, Alagoas (Foto: Reprodução Greepeace Brasil)

Foi no fim de agosto que os nordestinos começaram a perceber um fenômeno estranho em suas praias: a presença de um óleo preto que manchava tanto as águas quanto a areia dos locais. Agora, meses após a primeira observação, as autoridades esclareceram alguns riscos que rodeiam nove estados diferentes dessa parte do Brasil.

Apesar de ainda não se saber ao certo a origem da substância — a Polícia Federal acusa uma empresa grega —, os pesquisadores determinaram que o óleo é um derivado do petróleo que não é produzido no Brasil. Análises do material realizadas por universidades federais e pela Marinha mostram que ele é extremamente tóxico e prejudica a saúde de animais e pessoas que entram em contato com ele.

De acordo com Ícaro Moreira, professor no Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal da Bahia (UFBA), existem dois tipos de contaminação possíveis: a aguda e a crônica. A primeira ocorre a curto prazo e já está sendo observada em banhistas e voluntários que tentam limpar as praias. A crônica, por sua vez, está relacionada com o contato com hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), que têm potencial de causar câncer.

Contaminação aguda
“Essa exposição de curto prazo tem efeitos causados por inalação, ingestão ou assimilação (através da pele). Os efeitos da intoxicação são dores de cabeça, náuseas, vertigens, mal-estar e, em alguns casos, diarreia”, explica o especialista, em entrevista à GALILEU.

O problema também está impactando a vida marinha. De acordo com o Ibama, até o dia 31 de outubro, 110 animais foram encontrados cobertos pelo óleo. Desses, 81 já estavam mortos ou morreram por intoxicação.

saiba mais

  • Cientistas desenvolvem projetos para reaproveitar o óleo que está poluindo o litoral do Nordeste
  • Esse quilombo em Pernambuco está cercado por óleo de todos os lados

“Temos ouvido muitos relatos de pessoas que andam pelas praias ou brincam na areia e se sujam”, diz Moreira. “Isso acontece porque, mesmo não estando visível, o óleo continua impregnado nas camadas mais profundas de areia e aparece de acordo com os fluxos das marés.”

Segundo o especialista, isso resulta no contato direto com a substância, o que aumenta as chances de intoxicação aguda. “Não é porque o óleo não está visível que as praias estão próprias para banho”, lembra o cientista da UFBA.

Mesmo não estando visível, o óleo continua impregnado nas camadas mais profundas de areia e aparecem de acordo com os fluxos das marés. (Foto: Reprodução Greepeace Brasil)Mesmo não estando visível, o óleo continua impregnado nas camadas mais profundas de areia e aparecem de acordo com os fluxos das marés. (Foto: Reprodução Greepeace Brasil)

Isso também tem a ver com os riscos “invisíveis” dessas manchas de petróleo. Quando chega à praia, esse óleo adere às rochas, aos manguezais e à areia e, mesmo com a limpeza desses locais, partículas microscópicas continuam existindo. “Mesmo com o processo de renovação das águas, parte da substância continua lá, levando a uma contaminação secundária”, explica Moreira.

E são justamente essas micropartículas que resultam no segundo tipo de contaminação, a crônica, que ocorre a médio e longo prazos. “A maior toxicidade do petróleo ocorre quando ele está dissolvido na água, pois é assimilado mais facilmente pelos organismos”, aponta.

HPAs
O petróleo dissolvido é especialmente tóxico porque causa a liberação de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, os chamados HPAs. Existentes em mais de cem tipos, essas substâncias surgem da queima de compostos orgânicos, como madeira, carvão, tabaco e óleo.

Os HPAs são hidrofóbicos, ou seja, não interagem com moléculas de água, o que facilita que se acumulem em organismos que os consomem ou assimilam. De acordo com Ícaro Moreira, isso significa que, quando comemos mariscos ou peixes que entraram em contato com HPAs, eles vêm parar no nosso organismo.

“Quando os hidrocarbonetos entram no sistemas de animais como ostras e moluscos, eles também passam a fazer parte da cadeia alimentar. Aí, quando ingerimos esses alimentos, somos contaminados indiretamente”, disse o cientista.

Uma das tartarugas encontradas por representantes do Instituto Verdeluz, no Ceará (Foto: Reprodução Instituto Verdeluz)Uma das tartarugas encontradas por representantes do Instituto Verdeluz, no Ceará (Foto: Reprodução Instituto Verdeluz)

Além de causar sintomas parecidos com os que ocorrem em intoxicações agudas, o contato a longo prazo com os HPAs é perigoso, pois o material é extremamente cancerígeno. Como aponta o Instituto Nacional de Câncer (Incor), a exposição a essas substâncias está relacionada diretamente ao aumento de chances de ter câncer de pulmão, de pele, de bexiga, de esôfago e hematopoiético (sangue).

O governo e os institutos de pesquisa têm monitorado a presença desse material nos mariscos e pescados, mas isso ainda será necessário por muito tempo. “Esses alimentos precisarão ser estudados por um longo período”, explicou o professor da UFBA. “As manchas de óleo ainda estão aparecendo e não sabemos as proporções desse problema nem quanto tempo ele irá durar. É preciso termos paciência.”

Deixar de consumir peixes impacta diretamente a economia de diversas famílias nordestinas, que baseiam sua renda familiar na pesca e na venda de mariscos, por exemplo. Para Moreira, “isso faz parte de qualquer desastre ambiental. Cabe ao governo ajudar essas pessoas da melhor forma possível”.

Vazamento de óleo está impactando diretamente a economia local. Registro feito em Japaratinga, Alagoas (Foto: Reprodução Greenpeace Brasil)Vazamento de óleo está impactando diretamente a economia local. Registro feito em Japaratinga, Alagoas (Foto: Reprodução Greenpeace Brasil)

Trabalho do governo
Inclusive, o especialista acredita que o governo deva monitorar muito mais do que o consumo de pescados. Outro fator que preocupa Ícaro Moreira e outros cientistas são as estações de água.

Em algumas áreas do Nordeste, a água utilizada pela população vem de rios ligados ao oceano e, logo, também pode estar contaminada. “Nossas estações de tratamento não foram criadas para lidar com compostos do petróleo e isso precisa ser pontuado”, afirma.

Nesse momento, todo o cuidado é pouco. “As autoridades precisam ser cautelosas e esperar mais laudos científicos antes de liberar os banhos de mar nas praias afetadas”, argumenta Moreira.

Voluntários têm se unido para limpar as praias nordestinas. Segundo os especialistas, é essencial que essas pessoas usem material de proteção para evitar contato direto com o óleo. Registro feito em Recife, Pernambuco (Foto: Reprodução Greepeace Brasil)Voluntários têm se unido para limpar as praias nordestinas. Segundo os especialistas, é essencial que essas pessoas usem material de proteção para evitar contato direto com o óleo. Registro feito em Recife, Pernambuco (Foto: Reprodução Greepeace Brasil)

Mas isso pode ser difícil para quem cresceu em cidades praianas ou está turistando pelas paisagens nordestinas — principalmente quando tantos locais já foram afetados. Segundo o Ibama, até 31 de outubro, 286 localidades haviam sido tomadas pelo óleo, dentre elas, por exemplo, Barreirinhas (onde ficam os Lençóis Maranhenses), Porto de Galinhas (PE) e Jijoca de Jericoacoara (CE).

Só que resistir às tentações gastronômicas e de lazer é muito importante e fundamental para evitar problemas de saúde. “Sei que é difícil, mas digo para a população o que digo para minha família: não vamos tomar banhos de praia nem comer pescados, porque precisamos esperar mais informações”, afirma Moreira. “Estudo esse assunto há dez anos e acho que meu dever é informar a população para se precaver. A situação não está boa.”

Veja essa e outras matérias no site da Revista Galileu