Saúde

Bactéria presente em água termal é usada para melhorar saúde da pele

Água termal é engarrafada em fábrica da La Roche-Posay, na França (Foto: Thiago Tanji)Água termal é engarrafada em fábrica da La Roche-Posay, na França (Foto: Thiago Tanji)

Pode parecer esquisito, mas acredite: hospedar uma grande variedade de bactérias em seu organismo não é necessariamente algo ruim para a saúde. Apesar de esses microrganismos estarem normalmente associados a enfermidades graves, como cólera, meningite, tuberculose e salmonelose (infecção causada pela Salmonella), a existência de bactérias no corpo humano é inevitável e essencial para a manutenção de funções biológicas vitais.

Os números não mentem. O ser humano possui 10 trilhões de células “próprias”, enquanto hospeda cerca de 100 trilhões de microrganismos "externos", que vivem principalmente na pele, boca, genitália e intestino. Cerca de 1,5 kg do seu peso corresponde aos micróbios que repousam por todo o organismo neste exato momento.

De acordo com os cientistas, essas bactérias ajudam em uma série de atividades, como a síntese de vitaminas e a manutenção do metabolismo humano. O equilíbrio é o segredo para que os humanos vivam em paz com suas bactérias, inclusive aquelas causadoras de doenças. Quando os microrganismos "bons" começam a ficar em menor quantidade, os "ruins" tentam tomar o lugar e são responsáveis pelo desenvolvimento de enfermidades.

Apesar de tais interações já serem estudadas há séculos — em 1673, o cientista holandês Antony van Leeuwenhoek foi o primeiro a descrever a existência desses microrganismos — foi apenas nos últimos anos que os pesquisadores começaram a desvendar o código genético das bactérias e como elas se relacionam à dinâmica do organismo humano.

Graças a esse trabalho de investigação científica, a indústria já desenvolve produtos que fazem das bactérias um componente essencial para a manutenção da saúde. Um desses exemplos é o hidratante corporal Lipikar Baume AP+, fabricado pela La Roche-Posay, que utiliza um fragmento inativo da bactéria Vitreoscilla filiformis tal microrganismo é encontrado nas águas termais de uma comuna localizada no interior da França e cujo nome serviu de inspiração para batizar o nome da empresa dermatológica.

Em spa, águas termais são utilizadas para o tratamento de pacientes (Foto: Thiago Tanji)Em spa, águas termais são utilizadas para o tratamento de pacientes (Foto: Thiago Tanji)

Os benefícios das águas termais de La Roche-Posay são estudados há séculos: durante as Guerras Napoleônicas, o imperador francês Napoleão Bonaparte ordenou a construção de um hospital na região para tratar os feridos nas batalhas. Posteriormente, descobriu-se que as propriedades benéficas dessas águas vinham da abundância do selênio, elemento que é anti-inflamatório.

Outra característica marcante da composição hidrológica de La Roche-Posay é a presença da bactéria Vitreoscilla filoformis: graças aos estudos conduzidos nos últimos anos, foi possível entender que a sua presença é capaz de reforçar a proteção da pele e diminuir a quantidade de bactérias responsáveis por doenças – a abundância do Staphylococcus aureus na pele está relacionada a enfermidades como o eczema, que causa lesões graves.

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Por conta dessas propriedades benéficas, pacientes que sofrem de doenças dermatológicas, estão se recuperando de queimaduras ou passam por tratamentos complexos como a radioterapia (que danifica a pele) são levados a um spa em La Roche-Posay e passam por tratamentos que utilizam as águas termais — tal processo é acompanhado por dermatologistas e é contemplado pelo serviço de saúde público da França.

Nos últimos anos, os cientistas da empresa La Roche-Posay conseguiram isolar a Vitreoscilla filiformis: em um laboratório, os especialistas produzem em larga escala o fragmento inativo do microrganismo que é responsável por interagir beneficamente com a pele. Com isso, é possível utilizar essa matéria-prima no desenvolvimento de produtos como o Lipikar Baume AP+.

Em novembro, a companhia francesa organizou o primeiro evento internacional sobre Microbioma (nome dado ao conjunto de microrganismos, como bactérias, fungos e vírus), realizado na cidade de Paris. Reunindo pesquisadores e dermatologistas, foram apresentadas as novidades das últimas descobertas sobre como as bactérias podem interagir positivamente com o organismo humano.

"No futuro, será possível pensar em tratamentos individualizados a partir da microbioma de cada paciente. Mas para agora, é possível identificar as bactérias e entender qual papel elas desempenham em nosso organismo para desenvolver produtos que contribuam para a saúde humana", afirma à GALILEU o professor Thomas Luger, chefe do Departamento de Dermatologia da Univerisdade de Münster, na Alemanha, e presidente da Sociedade Alemã de Dermatologia.

Para Luger, a pele também deve ser considerada um "órgão vital" para a saúde e desvendar as bactérias que habitam essa região do corpo pode ser uma revolução para a dermatologia — para ter ideia, ao menos 1 mil espécies de bactérias vivem em nossa pele.

"O estudo do microbioma humano é algo muito recente, portanto o grande desafio é entender como as bactérias podem influenciar em toda a saúda da pele, para além de enfermidades que conhecemos bem, como o eczema e a dermatite atópica [enfermidade que causa coceira intensa e afeta bebês e crianças]", explica Othman Bennis, diretor de marketing e inovação da L'Óreal. Se você é daquelas pessoas que gostam de cuidar da pele com o cuidado que ela merece, pode começar a agradecer as (boas) bactérias que a habitam.

*O jornalista viajou à França a convite da La Roche-Posay

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