Saúde

Privacidade e serviços digitais serão foco da medicina no país, diz estudo

São Paulo – Quando o universo on-line começou a ganhar popularidade no Brasil e no resto do mundo, muitos usuários o utilizavam com medo de confiar suas informações a empresas digitais e o lazer virtual era o recurso mais utilizado. Com o passar da década e as melhorias feitas, grande parte das atividades básicas foram transferidas para o digital – como pagamento de contas, busca por empregos, compras. Agora, os serviços médicos também estão sofrendo mudanças pelos avanços tecnológicos, e uma pesquisa realizada pela empresa de monitoramento Hibou indica que a grande maioria dos hospitais irá adotar o novo formato até o final da década de 2020.

Os avanços tecnológicos na área da saúde tiveram início pelo agendamento virtual, entrega de resultados e monitoramento de condições vitais – sendo que este último é, hoje em dia, controlado inclusive por dispositivos móveis como relógios de pulso digitais e aparelhos celulares -, até chegarem no desenvolvimento da telemedicina, que consiste em consultas e acompanhamentos médicos realizados via chamadas de vídeo. Mas a medicina digital ainda encontra empecilhos e, de acordo com Ligia Mello, autora do estudo, a questão da confiança na privacidade é um dos maiores deles.

Focando em indivíduos das classes sociais A e B – isto é, que recebem no mínimo 10 salários mínimos por mês -, a pesquisa analisou como as pessoas de classe média e alta de São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Brasília e Recife reagem ao uso da tecnologia nas rotinas de saúde. Todos os entrevistados revelaram ter, em média, 1 aplicativo no celular voltado para a saúde, e 91% deles acreditam que é essencial que o aplicativo transmita segurança para o usuário que coloca suas informações médicas no serviço.

Em entrevista a EXAME, a autora do estudo disse que empresas como a Apple estão alterando a percepção das pessoas sobre o armazenamento de informações no digital. “Existe uma confiança séria na Apple, principalmente quando falamos das classes A e B; as pessoas confiam muito na tecnologia e na segurança que a empresa garante para eles quando se trata de informações particulares”, disse Mello, se referindo ao uso do Apple Watch e produtos similares, que servem para monitorar sinais vitais e acompanhar atividades físicas.

A pesquisa ainda aponta que a telemedicina é o serviço menos utilizado pelos entrevistados, já que 65% relataram ter dificuldades para confiar, e 75% utilizariam apenas em caso de tratamentos demorados ou doenças crônicas. Além disso, 83% dos que responderam a pesquisa acreditam que o serviço digital precisa ser fácil de usar, e 6 em cada 10 disseram que aceitariam receber a prescrição médica digitalmente, visto que muitos pacientes ainda se queixam da escrita de seus médicos.

Sobre o modelo digital ideal, os entrevistados disseram que preferem ter todos os serviços em um único aplicativo – isto é, dados básicos de saúde, agenda de consultas, armazenamento de informações médicas e exames e dicas para melhorar a saúde e o estilo de vida. A Hibou fez um levantamento sobre quais aplicativos já estão disponíveis no mercado e percebeu que nenhum abrangia todas as áreas de uma vez só, sendo o app CUCO o que mais se assemelha ao modelo idealizado pelos entrevistados.

O estudo, que foi feito com base na relação de pessoas de renda alta com seus planos de saúde, aponta que os hospitais particulares irão adotar inteiramente os formatos digitais até 2025. Mello disse para EXAME que, no Brasil, os aplicativos desenvolvidos serão tanto compartilhados como específicos de uma única rede: “Pela lógica do nosso mercado, deve aparecer algum aplicativo colaborativo, mas as grandes redes terão os seus próprios apps, para controlar os registros com mais facilidade. Hospitais como o Hospital Israelita Albert Einstein e o Hospital Alemão Oswaldo Cruz podem, inclusive, utilizar seus produtos como um diferencial de marca”, completou a autora.

Mello acrescenta ainda que o uso da medicina virtual é, a partir de agora, “um caminho sem volta”. No entanto, ela diz que os hospitais públicos estão com um processo de aceitação mais lento, visto a falta de recursos atuais – a expectativa é que, até o meio de 2020, seja possível realizar um estudo nos mesmos moldes com entrevistados das classes C e D, de acordo com a autora.

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