Saúde

Entrevista: “Pouquíssimos estereótipos têm base científica”

Angela Saini (Foto: divulgação)(Foto: divulgação)

Em 1881, a norte-americana Caroline Kennard, uma líder do movimento feminista na cidade de Boston, enviou uma carta ao cientista britânico Charles Darwin com uma pergunta simples: se era verdade que ele havia escrito que a inferioridade das mulheres era baseada em princípios científicos. No texto, ela assume que um gênio como Darwin não poderia acreditar em algo desse tipo e que seu trabalho certamente foi mal interpretado. Qual não deve ter sido sua surpresa ao receber a resposta.

saiba mais

  • 6 imagens para entender a história do Dia Internacional da Mulher

“Eu certamente acredito que as mulheres, embora geralmente superiores aos homens em questões morais, são inferiores intelectualmente”, escreveu Darwin. “E, para mim, parece ser improvável, com base nas leis de herança, que elas alcancem o mesmo nível que eles.” Darwin não foi o único, não foi o primeiro e provavelmente não será o último homem a afirmar tais absurdos. O que espanta, porém, é que ele era um cientista.
E cientistas não erram, lidam sempre com fatos objetivos, livres de preconceitos, certo? Errado. No livro Inferior é o Car*lhø (DarkSide Books), lançado em 2019 no Brasil, a jornalista britânica Angela Saini derruba esses (e outros) estereótipos, muitos dos quais reforçados pela ciência.
“Na história da ciência, temos que ‘caçar’ as mulheres: não porque elas não podiam fazer pesquisa, mas porque na maior parte do tempo elas nem sequer tiveram essa chance”, escreve Saini, lembrando diferentes cientistas que não foram reconhecidas por seus trabalhos e viram homens receberem prêmios pelas pesquisas iniciadas por elas. Só para citar alguns exemplos: a bióloga norte-americana Nettie Maria Stevens, que identificou cromossomos determinantes de sexo; a física austríaca Lise Meitner, que contribuiu para a descoberta da fissão nuclear; e a bióloga britânica Rosalind Franklin, envolvida na decodificação do DNA. “O preconceito é tão enraizado na cultura da ciência que até as mulheres discriminam outras mulheres”, enfatiza a autora.
No entanto, Saini é otimista, e defende que a ciência é um processo e está em constante transformação — para melhor. “Tenho certeza de que a ciência tem tudo a oferecer a mulheres e homens que querem viver em um mundo mais justo”, escreve. “Os fatos vão nos empoderar para nos transformarmos em uma sociedade melhor, que trata todos como iguais. Não só porque isso nos torna civilizados, mas porque, como mostram as evidências, isso nos torna humanos.” Confira a seguir a entrevista com a escritora.

“O sistema reprodutivo é a única diferença real entre os sexos. O resto
é apenas generalização, uma média” Angela Saini, sobre a construção de estereótipos entre mulheres e homens

Você tem diplomas de Engenharia e de Ciência e Segurança. Por que decidiu tornar-se jornalista?

Na verdade, foi mais porque, durante a graduação, eu me envolvi muito com política e movimento estudantil, como muita gente faz. Comecei a escrever para o jornal universitário e gostei muito. Embora pretendesse ser engenheira, quis experimentar e ver se conseguiria ser jornalista. Se não desse certo, voltaria à engenharia, mas funcionou.

O que a levou a escrever o livro Inferior é o Car*lhø?

Queria muito me conhecer melhor, entender se havia alguma verdade em todas essas concepções que temos de homens e mulheres. Elas são muito poderosas. Quer dizer, sei que estereótipos são diferentes em cada cultura, mas na Europa, ao menos na parte ocidental, existem ideias muito fortes de que as mulheres são melhores em fazer várias coisas ao mesmo tempo e em vocabulário. Já os homens seriam melhores em matemática, noção espacial, coisas desse tipo. Eu queria saber se essas ideias tinham fundo científico. E a verdade é que não: pouquíssimos estereótipos têm base científica.

saiba mais

  • Estas 10 mulheres inventoras são as campeãs em buscas no Google
  • Consumo de álcool cresce entre mulheres brasileiras, alerta relatório

Quais foram as maiores surpresas que teve ao fazer as pesquisas para o livro?

De certa forma, eu também absorvi todos esses estereótipos ao longo dos anos. E foi muito emancipador aprender que, na verdade, as diferenças psicológicas e biológicas entre homens e mulheres são muito, muito pequenas, que as diferenças intelectuais são praticamente inexistentes, entre outras informações.

No livro você usa como exemplo a afirmação de Darwin de que as mulheres eram e sempre seriam inferiores. Você sente que a maneira de agir da sociedade influencia o trabalho científico?

Sim, a ciência reflete muito o sentimento da sociedade. Na Europa daquela época, especialmente na Inglaterra Vitoriana, em que vivia Charles Darwin, a ideia era a de que homens e mulheres tinham diferentes esferas. Os homens eram intelectuais, pensadores, fazedores. As mulheres ficavam em casa, cuidando das crianças e do marido. Não é surpreendente que Darwin tivesse esse pensamento. Acho que, frequentemente, enxergamos a ciência como uma entidade que nos traz uma visão externa, sem preconceitos e sem referências culturais atreladas. E isso é verdade até certo ponto. Um exemplo são as teorias como a da evolução, que acabou com mitos religiosos e trouxe um entendimento científico do nosso surgimento. Mas, ao mesmo tempo, sempre existirá um determinado viés, especialmente em pesquisas sobre humanos, porque o primeiro ponto de referência somos nós próprios e as sociedades em que vivemos. É muito difícil despir-se de tudo isso para desafiar pensamentos ortodoxos de uma cultura em que você vive.
E o que podemos fazer para mudar essas concepções?

Acredito que muita gente, e eu me incluo nisso, tende a ler tudo o que é publicado em periódicos científicos ou nos jornais e assumir que é verdade e pronto. Mas a ciência não funciona dessa forma. Ela é um processo — as coisas não dão certo, erros são cometidos, até que vamos chegando a entendimentos melhores. Isso significa que nem todo estudo científico é a verdade absoluta ou um fato comprovado. Acho que precisamos exercitar mais nosso pensamento crítico. E aí, quando tivermos novos entendimentos, precisaremos desafiar nossos próprios preconceitos todos os dias. Faço isso todo o tempo e me pergunto: estou sendo justa? Estou tratando essa pessoa como um indivíduo ou baseando-me em estereótipos que construí?

Essa é uma boa reflexão, especialmente nesses tempos, em que as pessoas parecem ESTAR cada vez mais radicais…

E principalmente quando estamos educando crianças. Tenho um filho de 5 anos e sempre tive muita consciência do papel dos estereótipos. Tento dar a ele vários tipos de brinquedos para não limitar seus interesses e fazê-lo entender que não há nada que ele não possa fazer, assim como não há nada que uma garota não possa fazer só por causa de quem são.

O que você gostaria que as pessoas entendessem com seu livro?

Primeiro, gostaria que as pessoas tivessem um melhor entendimento sobre quem as mulheres realmente são e por que a discriminação e o desequilíbrio de gêneros na sociedade são como são. Em segundo lugar, desejaria que as pessoas começassem a pensar mais criticamente sobre a ciência e sobre como ela pode ser influenciada pela cultura, sociedade e política.

Afinal, quão diferentes são os homens e as mulheres?

O sistema reprodutivo é a única diferença real entre os sexos. O resto é generalização, uma média.

Temos visto iniciativas que mostram essa diferença entre os gêneros, mas o que de fato mudou? Podemos ser otimistas em relação ao futuro das mulheres na ciência?

Por causa dos movimentos sociais que temos, como o Me Too, com certeza as mulheres estão ganhando voz, falando sobre sexismo, abuso, discriminação. Isso é um ótimo passo na direção certa. E vejo que em muitas partes do planeta existe um desejo de mudar, algo que eu não via antes. Então, acredito que estão acontecendo mudanças sim.

saiba mais

  • “Há uma negligência histórica com o corpo da mulher", afirma Jen Gunter
  • Conheça 10 mulheres incríveis que fizeram história na ciência

O que você diria a uma menina que gostaria de seguir em uma área da ciência, mas é desencorajada pela família ou pela sociedade em que vive?

Não há nenhuma razão para que uma mulher que se interesse por ciência e queira fazer carreira nessa área seja incapaz de conseguir. Uma coisa que gosto de dizer às meninas é que essas carreiras não são apenas interessantes, já que você aprende como as coisas funcionam, mas também oferecem muitas opções de trabalho. São profissões brilhantes, independentemente do fato de ser necessário provar algo para alguém. A gente sabe que na situação econômica atual do planeta está difícil conseguir empregos, mas nessas áreas sempre há trabalho. Então se jogue. Reivindique isso!

INFERIOR É O CAR*LHØ Angela Saini. Editora DarkSide, 320 páginas, R$ 54,90  (Foto: divulgação)INFERIOR É O CAR*LHØ
Angela Saini. Editora DarkSide, 320 páginas, R$ 54,90 (Foto: divulgação)
Veja essa e outras matérias no site da Revista Galileu