Saúde

O que é o isolamento vertical e por que ele pode não funcionar

Isolamento vertical propõe que apenas grupos de risco sejam isolados. Acima: pessoas atravessam esquina da Avenida Paulista em faixa de pedestres. (Foto: Jacek Dylag/Unsplash)Isolamento vertical propõe que apenas grupos de risco sejam isolados. Acima: pessoas atravessam esquina da Avenida Paulista em faixa de pedestres. (Foto: Jacek Dylag/Unsplash)

O pronunciamento feito pelo presidente Jair Bolsonaro na última terça-feira (24) sobre a pandemia de Covid-19 chamou atenção por diversos motivos. Além de comparar a doença causada pelo novo coronavírus com uma gripe comum, o governante contradisse as indicações dos especialistas a respeito do distanciamento social: segundo o presidente, a melhor forma de conter a doença sem prejudicar a economia é o chamado "isolamento vertical".

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Mas, afinal, o que é esse tal "isolamento vertical"?

Se no distanciamento social (ou "isolamento horizontal") a ideia é restringir o contato entre as pessoas o máximo possível para impedir a transmissão da doença, no isolamento vertical, o foco são as pessoas com mais de 65 anos e aquelas que têm condições pré-existentes (o chamado "grupo de risco"), além dos já infectados, claro.

Quem defende essa alternativa acredita que o distanciamento social dessa parcela da população é suficiente. Ou seja, escolas, postos de trabalho e estabelecimentos comerciais podem continuar abertos — só não devem ser frequentados pelo grupo de risco.

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David L. Katz, médico da Universidade Yale, nos Estados Unidos, defende em um artigo publicado no The New York Times que a medida também ajuda o sistema de saúde a focar na parcela da população que é especialmente vulnerável e fornecer a essas pessoas os recursos necessários. "Esse foco em uma parcela muito menor da população permitiria que a maioria da sociedade voltasse à vida como de costume e talvez evitasse o colapso de vastos segmentos da economia", escreveu Katz.

O médico acredita que, mesmo que outras pessoas fossem contaminadas, a grande maioria desenvolveria infecções leves por coronavírus, o que permitiria que os recursos médicos se concentrassem naqueles com casos realmente graves. "Uma vez que a população em geral fosse exposta e, se infectada, se recuperasse e ganhasse imunidade natural, o risco para os mais vulneráveis ​​cairia dramaticamente", observou Katz. "Enquanto estivéssemos protegendo os verdadeiramente vulneráveis, uma sensação de calma poderia ser restaurada à sociedade."

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Entretanto, o especialista pondera que não existem estudos que corroborem essa hipótese — enquanto pesquisas demonstrando a eficácia do distanciamento social não param de ser publicadas.

De acordo com os cientistas que defendem a intervenção horizontal, o problema é simples: se pessoas que não fazem parte do grupo de risco contraírem a doença, o risco de transmitirem para alguém que de fato pertence ao grupo é alto. Isso porque muitos idosos vivem com pessoas mais jovens ou estão em constante contato com os netos, por exemplo.

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Imagine uma criança cuja mãe trabalha em uma grande empresa. Ela leva o filho para a escola todas as manhãs e o busca no horário do almoço, deixando-o na casa dos avós para passar o resto do dia. A noite a tarefa de buscar a criança é do pai, que trabalha como vendedor, entrando em contato com diversas pessoas durante o dia. Se nesse ínterim qualquer membro da família tiver entrado em contato com alguém infectado, as chances de contaminarem os avós da criança, que fazem parte do grupo de risco, é muito alta.

E não é só isso. A ideia de que casos graves ocorrem apenas em maiores de 65 anos não é de todo correta. Segundo uma pesquisa do Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), 47% dos casos mais graves de Covid-19 no país eram de pessoas com menos de 65 anos.

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