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A plataforma digital entre o médico, a Covid-19 e o paciente. E depois?

As palavras ditas possuem textura e química se vejo olhos e semblante, se apenas as leio ficam frias e as entendo com o sentimento que teria para dizê-las naquela sequência escrita. Se as ouço ganham dimensão emotiva, mas se vestem de informalidade. Por outro lado, se enxergo e sou visto por meu interlocutor em tempo real em uma tela enquanto conversarmos, lá se foram as barreiras alinhadas anteriormente, é isso?

Ainda que em um primeiro momento a resposta pareça óbvia ela não é, pois um diálogo presencial envolve feeling na captação de nuances psicoemotivos essenciais.

Em meu sexto ano de medicina um professor respondeu a uma dúvida nos termos mais acadêmicos que encontrou e após caminhar pela fisiologia, farmacocinéticas de drogas e a doença em questão iniciou um segundo contexto explicativo. Desconectou-se então do perfil professoral que sua função lhe impunha e disse em poucas palavras um conceito que guardo desde aqueles tempos no alicerce de minhas condutas: 90% dos problemas se resolvem com o bom senso, também na medicina.

Passei a compreender que nós médicos temos o obrigatório mote inicial de distinguir aquilo que o bom senso norteia dos complicados 10% que precisam de nossas milhares de horas de leitura técnica e aprendizado prático. E nem sempre é fácil.

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    Neste momento estamos de posse de uma alforria oficial, que a situação pandêmica nos cedeu, para a criação de agendas digitais e estamos à procura de vários discernimentos que só o tempo destilará: o que ficará desse modelo de relação médico paciente e, portanto, já deveria estar, e o que deletaremos, e então deveríamos ter evitado.

    Nosso dilema atual é uma virose que não sabemos como curá-la e desconhecemos como identificar (sem testes) a maior parte de seus portadores, o que faz do isolamento social a melhor maneira de diminuir, ou ao menos diluir, a fome de devastação dessa doença. Então uma interface entre pacientes e médicos que não os exponham um ao outro é por si só adoção de bom senso, o qual será utilizado pelo clínico para orientar o enfermo na condução do quadro em sua residência ou destiná-lo ao pronto socorro especializado. E nos é permitido também a utilização da mesma plataforma no atendimento de outros pacientes enquanto obedecem às orientações de nossas autoridades sanitárias.

    Porém, haverá vida pós-pandemia e me parece claro o surgimento de inúmeros ruídos na hipótese da implantação cotidiana do recurso, principiando com as primeiras consultas carecendo de um extrato emotivo que a tela turva em seu entendimento, de lado a lado.

    Essa prática criará ainda a possibilidade de um registro gravado da consulta virtual em sua íntegra que pode por acidente ou intencionalmente ganhar exposição para além das duas partes. A frieza observada anteriormente para a palavra escrita pode ganhar seu lugar neste cenário onde tudo que é dito pode se tornar ferramenta de questionamentos à frente.

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    Diagnósticos que se detenham naquele supracitado universo da complexidade gerarão a necessidade de condutas mais incisivas, as quais estão contidas em um leque de opções fornecidos pela literatura médica, a maioria sem resolutividade absoluta e passível de falibilidade. Os critérios para a decisão terapêutica nesse ambiente de frágil privacidade poderiam se originar mais da defensável matemática que das convicções clínicas do médico assistente?

    Aborrecem aos médicos aqueles que orbitam em seu universo lhes tomando condutas que custaram anos, às vezes décadas, para que os capacitassem para tal, não pelo que lhes abstrai monetariamente e sim pelo que se impõe quando existe o desconhecimento entre a tênue linha que separa o inócuo do perigoso. Em algumas situações teremos de um lado da fronteira a vida e do outro a sua perda.

    A implantação destas plataformas talvez ateste a credibilidade de profissionais com extenso lastro acadêmico e ao invés de os expor lhes tragam mais distinção perante tantas insensatas alternativas. Mas, ainda assim existem graves ameaças que estão além do controle de bem-intencionados médicos e pacientes, perigos que se relacionam a um mundo digital ainda absolutamente inseguro.

    Pior ainda para os jovens médicos é se o cais seguro que possam atracar seja dos mesmos aproveitadores que já fazem do sucateamento da mão de obra médica seus lucrativos modelos de negócios.

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    Mas, é uma ótima alternativa em acompanhamentos bem sedimentados nas circunstâncias que envolvam avaliações evolutivas matemáticas como perda ponderal, otimização medicamentosa perante resultados de exames e troca de impressões na mudança terapêutica alinhada em consulta presencial prévia. A impossibilidade do comparecimento do paciente em situações que este se satisfaça com a consulta à distância deve ser respeitada, afinal é quem paga pelo serviço, que a meu ver é mais trabalhoso para o médico que o modelo tradicional.

    É inegável que existem maneiras para equacionar dificuldades, mas a estrutura da informatizada relação médico/paciente se levada ao extremo estará pelo menos submissa ao risco de se transformar em questionários de perguntas e respostas interpretados pelo bom senso de um software.

    <span class="hidden">–</span>Ricardo Matsukawa/VEJA.com

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